sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Sobre o propósito e a finalidade da tragédia cotidiana


Há uma grande diferença entre pensar a humanidade como um fator material e problematiza-la como um fator derivado da sua humanidade. Falam-se dos pobres, dos refugiados como um problema exato, econômico, analítico, concreto, e não como um problema humano e moral. Desrespeitam todo um universo psicológico, social e político do qual leva uma sociedade a gerar tais mazelas a ponto de comprometer a vida de milhões. É cômodo pensar o problema como alheio ao universo, por mais que as tragédias do cotidiano nos bata a porta e diga que se não há uma falha, existe um problema de ordem social que gera mortes “acidentais” diariamente.
Talvez seja esse o principal problema, só a partir do instante que pensamos a humanidade como fator social e não como resultado de extrapolações econômicas que as causas de um problema social encontram suas soluções e a “tragédia do cotidiano” se tornem uma tragédia inaceitável. Existe uma dificuldade inerente de se pensar a humanidade no macro, em seu coletivo, e não em propósitos individuais. A classe médica é radicalmente contrária a vinda de médicos cubanos, mas igualmente contrária a se aventurarem no sertão norte de Minas ou no Cariri escaldante do nordeste. 
A tragédia silenciosa do cotidiano é menos grave ou menos escandalosa que a tragédia inesperada? No final o que difere o propósito da finalidade? Hipócrates garante o direito e a manutenção da vida, mas o que diz o interesse econômico? Uma vez perguntaram a um jovem da Alemanha recém unificada se o povo alemão acreditava na possibilidade de um novo Hitler, ao passo que respondeu: “Não! Somo educados demais para isso.” Essa educação me dá um medo profundo, a nossa sociedade está educada demais! Politizada ao ponto de dizer que um Cubano é um escravo, de afirmar que as médicas estrangeiras tem cara de domesticas e não "colocam" respeito no paciente. Ora bolas, paciente não precisa de imposição, precisa de aconselhamento médico. 
Deixo as lições morais reservados aqueles que acreditam na igreja e vão se confessar aos domingos.
No fundo, academia nunca formou ninguém, forma, sim, para uma razão econômica e não para um dilema social. Meu queridos amigos médicos que gostam de dizer em alto e bom som que sua profissão é um sacerdócio moderno, onde está o evangelho que leva aos rincões? Por mais que seja inaceitável existe a vida humana no Norte de Minas, existe o ribeirinho, o sertanejo, o pé descalço. Não sejamos egoístas de pensar que não valha ser médico ou a vida não tenha valor nesses lugares. A vida é vida, e a razão econômica que tem finalidade em si.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A obsessão pela obsessão



            Nada mais tocante que uma paixão, a chama que, como disse o poeta, arde sem doer. Mas a paixão pela paixão é algo construtivo? A obsessão de um parnasiano pela métrica de uma ânfora grega ou de um compositor pela harmonia sonora de um soneto tem a mesma raiz da obsessão de um ardiloso serial killer que mata pela simples razão da morte. Até mesmo um Van Gogh capaz de pintar o brilho de um céu estrelado é capaz de arrancar sua própria orelha em busca do perfeito imperfeito.
            Antes de mais nada sou um obsessivo, maníaco pela perfeição que eu mesmo criei. Uma perfeição sem razão de ser, mas que me torna o imperfeito a luz de um raio sem saída. Talvez, ou com certeza, sou um obsessivo menor no talento, mas tão grande na dor. Sou incapaz de dormir sem o barulho de um ventilador, sem que todas as portas do armário estejam fechadas. As partes que gostava de um livro eu as decorava, no ensino médio não me permitia estudar menos que dez horas em casa. Quando fiz regime perdi metade de minha massa corpórea, quando cansei do ato, voltei a engordar o dobro. Ter uma meta e ser refém da mesma, são grandezas diametricamente opostas.
Por muito me senti um prisioneiro de mim mesmo, sem a capacidade de não realizar o que me propunha. O medo de não conseguir era tão grande que curvava aos meus próprios desejos. O martelo que martela até o prego e a madeira serem só uma substância, fundidas no desejo de tornar a simetria não uma busca espiritual, mas uma meta terrena.
            Leio durante dois dias sem parar, estudo até dormir sentado e ao mesmo tempo que sou o comediante me transformo no maior Scrooge da terra. Adoro o Natal, mas fico atacado no dia. Todo obsessivo é aquele que procura a mesma razão da vida na teoria que criou para si, mesmo que tal seja intangível. É claro que não haveria um Tchaikovski, Mozart, kant ou pelo menos, uma explicação para eles, sem o diagnóstico da bipolaridade.

            Qual o preço que tais figuras pagaram pelo mérito? Garanto que a perfeição pela forma não frutificou em uma vida plena, tanto no contato, como em uma estabilidade essencial a vida coletiva. Cito exemplos de gênio, uma vez que a obsessão só se faz presente e bonita pela eloquência, grandiosidade e beleza, mas se cala aos milhões de comuns que vivem refém de algo que criaram. Acredito que a quinta sinfonia não só deveria ser criada, mas também ter sido experimentada pelo seu criador. Bethovem, provavelmente, nunca sentiu o prazer da sua obra de arte, devido ao fato de sua obsessão nunca permiti-lo achar digno uma criação que não seja tão grandiosa quanto seu pensamento obsessivo. Ser obsessivo é ser o próprio algoz que fere si próprio até que o objeto do desejo se torne presente. O amor não pode ser uma obsessão e quem ama demais, no fim não ama a si mesmo.

Pequena nota sobre a debialidade Russa

Curioso como um Estado que passou por uma revolução social que abalou toda estrutura social de sua época mantenha uma postura social tão contraditória e, nas palavras dos próprios "companheiros", reacionária. O que difere essa Rússia da Rússia de um Czar que censurou o "'lado" gay de um Tchaikovsky? O herói da música erudita, maior que o próprio Wagner, teve sua casa lacrada por décadas pelo simples fato de ser um herói com o defeito de uma imperfeição moral "ontológica" e anterior a sua genialidade. Encontro colegas na faculdade que idolatram um Putin e se orgulham de ter reintroduzido a mão de ferro de um Stalin na política. Nunca concordarei com nenhuma política e movimento social que negue o ser humano em sua essência tanto na esfera do indivíduo como da inserção ao corpo social. Me alegra que todos os moralistas da história é reservado o espaço comum da vergonhosidade de uma Papa Alexandre, Hitler, Idi Amin, Karol Wojtyla e Príncipe Pontífice Francisco.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Pastor do Fim do Mundo ou do Fim da Pedra?

     O Brasil é, sem dúvida, o quintal mais desejado de todo planeta. Obama foi o primeiro a romper uma tradição ao ser o condor do império que primeiro visita a ema do planalto, antes mesmo desta ir ao beija mão do novo rei. 
     Agora, o Francisco do Fim do Mundo vem ao Brasil cercar suas ovelhas antes mesmo de ir ao curral de origem. Sinal de que o rebanho brasileiro está mais gordo que o pobre charque argentino flagelado por uma década de estagnação e que as raízes da Igreja na América latina tem seu ponto pivotante no Brasil Católico. O fator inusitado reside no ponto em que o Papa do Fim do Mundo é, sem dúvida, o pastor que sai da Europa para buscar um novo berço ao catolicismo. Credo arrastado a soleira da porta pela secularização inerente à sociedade moderna e cada vez mais informatizada e individualista. 
     O Francisco, soldado da cristandade, tem como missão levar seu credo a lugares que ainda não foram manchados por essa secularização e seu maior inimigo é o protestantismo de muitos iletrados do fim do mundo. É nessa seara que a Igreja de Cristo pode conseguir um rebanho, sinal evidente que as coisas debaixo do equador sempre estiveram em uma amálgama diferente do debate original. O Brasil é, por excelência, uma tentativa tosca da repetição do debate externo, mas que se apropria e se transmuta em algo novo e contraditório a própria filosofia de origem. 
     As idéias aqui estão fora do seu lugar e de seu contexto, a Igreja se passa por uma falsa força moralizante em espaços de baixo desenvolvimento social. O "Calvino" latino, provavelmente, usará suas ferramentas tradicionais quando não por meio da típica bandeira vermelha será através das habituais chagas de cristo e figuras de catequese. Será por meio dessa natureza do atraso que tal filosofia já nasce senil e vacilante. Uma velhice que aconselha países com pandemia de AIDS a queimarem e descartarem preservativos e criminalizarem a construção e controle familiar por meio do mito do pecado bíblico original. 
      Não importa se é Francisco, Bento ou Anchieta, pois a Igreja jamais será a mesma e o salgado preço de resistir ao novo é ser esquecido pela história. O papa do fim do mundo é, naturalmente, o papa da mudança, da mudança que se faz tardia e de uma igreja que se tornou velha e defasada.
      O questionamento do rebanho latino é um fato que se intensificará cada vez mais e suponho que em 30 anos o cercado terá metade das ovelhas de nosso tempo. O mercado, como força social e histórica, já relegou a religião a um papel de segunda magnitude na construção e desenvolvimento social. Dizer que Cristo é o caminho é expressão de fanatismo, com sua importância restrita à manutenção do conhecimento e preservação de um passado histórico nada nostálgico. Cristo não é a Igreja e a Igreja nunca foi a instituição do Nazareno, mas uma advogada parcial que alega interesse próprio. Francisco, em suma, será lembrado por ser um Papa que procurou sanar a rachadura da Pedra que, ao invés de estátua, se lapidou no próprio túmulo.

sábado, 9 de março de 2013

A DIVINDADE DA ESCURIDÃO



            Na caverna da minha alma o fogo crepita, o fogo estala contra a realidade. A sombra turva para mim é nítida e sua nitidez me diz a verdade, a verdade me sussurra grandeza. A verdade de uma luz que minha alma deseja conhecer. A grandeza de um homem, homem não! Senhor que mudou o mundo! Salvou a humanidade de si mesma! Mudou o destino dos povos! Adorai o Senhor! Não precisamos mais da luz, a Sombra é grande e tem os contornos que destroem meus medos! Todos querem um lugar sob a luz, mas nos temos a Sombra e isso nos basta! Não se discute a Sombra, porque ir contra a Sombra é negar sua família, sua terra, sua tradição, é vencer seu medo e querer ver a LUZ.
            A sombra do Senhor projeta um Deus, não seria monstro? Monstro não! A projeção do fogo não mente! Quem precisa do fogo quando se vê o vulto? O vulto já diz tudo e sua promessa irá trazer um reino de 1000 anos! Há a promessa de nos purificarmos em meio à fuligem da sombra. Salve a Sombra!
            Há escravos rebeldes que não se ajoelham diante da Sombra, e procuram o fogo. Hereges! Caça aos hereges! Como duvidar da Sombra de tamanha grandeza? Expulsem-nos do reino, do reino não, do universo! Essa praga está a serviço do mal e vão condenar  a todos a serventia de um Senhor ruim. A Sombra caminha com os antigos iniciados, os antigos guerreiros andarilhos que sumiram em uma ilha sob a névoa de Avalon!
            Como duvidar de nossa própria ontologia? Esqueceu de nossas veias a escorrerem o sangue que um dia vai purificar o mundo? A verdade é a Sombra e a escuridão é mera insensatez de quem não quer ver o esplendor na fuligem. A Sombra nos iguala, a Sombra nos cobre no escuro, a Sombra tira meus traços, a Sombra anula minha imagem, a Sombra me asfixia. A SOMBRA ME MATA!

Marta, Dona Marta, Mãe, Mãezinha, Mamãe


          Mãe, como escrever um texto sobre você? Assusta-me o fato de você completar 50 anos, mas o que quer dizer tal grandeza? O que é o tempo? O que é amor? O que é a vida? Você será sempre a pessoa a qual procuro resposta quando tudo parece se desmanchar no ar. O que isso me difere do menino de 2 anos que ainda procurava o que de mamar e o refúgio no seu peito? Não importa qual seja a pergunta, seja ela uma indagação típica da infância ou da dor da existência adulta, a resposta vai estar sempre em você, no seu olhar e no carinho.
            Se tudo é assim tão igual como no princípio o que é o tempo? Mãe, o que é o tempo? Talvez uma grandeza menor do que seja a vida e do que seja a nossa vivência. Não existe idade para uma mãe. Mãe e filho são títulos de nobreza que se iniciam na existência recíproca e se prolongam ao tamanho infinito do amor.  Se eu sou filho enquanto você é mãe, qual é o fio que nos une? Mãe, o que nos une? É o cordão da placenta? É o primeiro abraço? É o primeiro afago? Não mãe! É o amor, o nosso laço é o amor! Mãe e filho se confundem, é um só enquanto são dois porque o que os une é só amor. Ser filho é amar a mãe e ser mãe é amar o filho! Mãe, o tempo importa? Mãe, o tempo importa? Se o tempo é só o tempo e o amor é o que nos define. Então o tempo não importa!. Importa é o amor que só existe enquanto filho e você enquanto mãe!

                                                                                                                     
                                                                              João, Joãozinho, seu filho.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A uma “Estranha” com amor



            Há pequenas lições familiares que persistem no decorrer dos anos e que aos poucos vão se sedimentado e assumindo feições variadas ao longo da nossa existência individual. Uma dessas lições aprendi com minha mãe e que nunca  abandonei é o fato de acreditar que conhecemos realmente uma pessoa ao analisar seus pequenos atos e comportamentos cotidianos e concluir que se não há bondade pelo menos se há honestidade moral por detrás. 
            Tudo aparentava ser um final de tarde típico de uma quarta-feira entediante pela aula conceitualmente nebulosa de Estatística até que a teoria materna se mesclasse com a realidade na forma de madona!  Ao chegar à Cultura Inglesa percebo a ausência do meu iPhone e entro em desespero, sabia que não só havia ficado dentro do ônibus, mas que, provavelmente, não o veria mais. Ligo para o numero do celular já sem esperança de que haveria resposta quando uma voz de uma moça gentil atende e diz que está tudo bem, que estaria em certo local tal hora e não haveria problema em devolver o aparelho.
            Esse fato desassociado de contexto parece ser uma banalidade recorrente e que estaria eu a escrever tal relato por mera casualidade ou elucubração estéril, mas acho que não se trata disso. Não tenho dúvida que honestidade e compromisso com o próximo seja algo que não deva ser visto como qualidade, mas como peça fundamental para se viver em coletividade. Mas convido ao leitor a pensar se tal fato é uma característica de nossos tempos. Por se rara tal atitude se torna cara ao público, e tudo que há em ausência se torna valioso pela essência. Não elogiar a atitude da moça não seria a aceitação de que seu ato é mero formalismo social e não necessita de ressalva, mas o colocar na esfera de experiências individuais que se perdem e não se reproduzem em sua essência. Tornando um fato menor em situações em que o exemplo é louvável.
            Ao entregar meu celular a Carol me diz que não deveria lhe fazer tantos elogios, pois seu ato não era se quer uma opção. Era a única ação esperada de uma pessoa que encontra um aparelho tão caro largado no ônibus e que teria certeza que eu agiria da mesma maneira se os papéis estivessem trocados. Encerro o texto agradecendo tal “Estranha” por ter me mostrada uma faceta que às vezes se mostra tão escassa e incomum em nossa selva de pedra urbana que apaga o homem e o torna um ser desfocado em meio à multidão. Agradecer a minha “Estranha” favorita é agradecer a mim mesmo, pois obtive a certeza que a honestidade compensa e que há um humano por trás da mascara do sujeito apagado pela massa urbana.
            Acredito que a Carol nunca chegará a realmente ler esse texto, mas que os demais estranhos ao deparar com tal escrita se vejam tão nobres como a minha “Estranha” favorita e que no meio de “Estranhos” sempre há o SER HUMANO capaz de exercer seu aspecto moral.



O perfeito valor consiste em fazer, sem testemunhas,
o que se faria diante de todos.
François de La Rochefocauld