
Euclides
da Cunha foi bastante influenciado pelas teorias raciais que estavam em voga no
final do século XIX e enxergava na questão de Canudos um embate entre a
República, representando a civilização, sobre a liderança da raça superior
branca, contra o sertanejo, a sub-raça do sertão. O sertanejo era, antes de
qualquer coisa, uma raça totalmente adaptada ao seu ambiente geográfico, um
Hércules-Quasímodo, que aliava a força/ valentia para desbravar a terra contra
uma aparência mirrada e até mesmo tortuosa. Os sertanejos, por serem indivíduos
desenvolvidos naquele meio, não possuíam aptidão para se desenvolverem frente
ao avanço inerente da máquina civilizatória e por isso os seus destinos seria
serem deixados às margens da história universal, compreendida como uma
trajetória retilínea, contínua e sem rupturas. Nessa perspectiva destruir
Canudos era garantir a inevitabilidade do progresso, o avanço da ciência e da
ilustração sobre as raças mestiças e inferiores ao homem branco. Esse pensamento
associa o sertanejo a ideologias consideradas inadequadas ao tempo histórico e
sua inerente incapacidade intelectual para assimilar conceitos modernos para
legitimar o massacre e barbárie perpetrados pela missão civilizatória
representada pelo “fardo do homem branco”. Podemos pensar a barbárie perpetrada em
Canudos como aquela feita na época da colonização em que a espada e a cruz dizimaram
a família indígena no continente.
A hecatombe contra Canudos causou um
grande mal estar para a República instaurada há pouco tempo, revelando o caráter
bárbaro de uma civilização que pretendia se mostrar moderna para as nações européias.
A visão negativa do Brasil só será revertida na gestão do Barão de Rio
Branco na pasta de relações exteriores que por meio da diplomacia mudará os
eixos norteadores da política externa do país. Pensar em Canudos é repensar a
fronteira entre os “bens nascidos” e aqueles que a margem da civilização procuram
uma vida digna, mas são engolidos pela barbárie inerente do sistema.