Todo
indivíduo ou sociedade precisa de uma válvula de escape seja essa realizada de
forma racional ou não. O Natal é, naturalmente, uma forma cristã de prometer ou,
ao menos, criar a ilusão que a partir dessa data todos os problemas encontrarão
suas soluções naturais e que a fraternidade vencerá o egoísmo. Mas me pergunto
se o Natal é o bastante quando a grande família patriarcal do século XX se
depara ou, simplesmente, compreende seu natural desmembramento?

A
morte recente do meu amado avô me mostrou que não era somente o seu ciclo biológico
que encontrara seu inexorável fim, mas que toda família foi confrontada com o
inusitado fechamento de um ciclo em que os anos dourados ficaram para trás.
Nesse dia choramos não só por ele, mas por nós mesmo. Na minha óptica caso a
vida fosse escrita em capítulos à sessão reservada a infância, mesmo eu com 22
anos, e todas suas inocentes maravilhas havia chegado a sua conclusão. Não é
com alegria que realizo tais fatos, mas é possível ser de outra forma? Talvez
seja o simples medo do novo, de não mais viver com eles, mas é ainda possível
viver com todos?
Tudo
que a vida nos pede é coragem e, talvez, seja esse o espírito que o Natal do
século XXI nos desperte. Coragem para migrar de uma realidade que não exprima o
pensamento de uma união incondicionalmente superficial de um núcleo calcado
pela biologia para relações mais saudáveis no sentido emocional. É um fato curioso,
pois se o Natal antes era a festa da família, hoje é a festa da paciência, em
que cada um procura suportar o outro. Em suma, os tempos são outros e o Natal
não é o mesmo.